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“E se descobrirem que eu não sei tanto quanto pensam?”

“Todo mundo parece mais preparado do que eu.”

“Eu deveria me sentir mais seguro a essa altura.”

Esses pensamentos podem aparecer em diferentes momentos da trajetória profissional.

Na Medicina Veterinária, eles podem ganhar força especialmente em períodos de transição: durante a graduação, nos primeiros atendimentos, no início da carreira, ao assumir novas responsabilidades ou diante de casos mais complexos.

Popularmente, essa experiência é conhecida como síndrome do impostor.

Na literatura científica, o termo mais utilizado é fenômeno do impostor.

Ele descreve uma experiência em que a pessoa encontra dificuldade para reconhecer a própria competência e tende a atribuir conquistas a fatores externos, como sorte, ajuda de outras pessoas ou circunstâncias favoráveis, enquanto mantém o medo de que, em algum momento, sua suposta “falta de capacidade” seja descoberta.

É importante destacar que o fenômeno do impostor não é um diagnóstico psiquiátrico.

Mas isso não significa que seus efeitos devam ser ignorados.

Quando a formação termina, mas a sensação de “não estar pronto” permanece

A graduação oferece conhecimento técnico, treinamento e experiências práticas.

Ainda assim, o início da vida profissional coloca o médico-veterinário diante de situações que nenhuma formação consegue reproduzir completamente.

Agora existem pacientes reais.

Responsáveis esperando respostas.

Decisões que precisam ser tomadas.

Incertezas clínicas.

Responsabilidades novas.

E uma expectativa, muitas vezes implícita, de que o profissional recém-formado já deveria saber como agir em todas essas situações.

Essa transição pode gerar insegurança.

Sentir dúvida diante de algo novo não significa necessariamente falta de competência.

Em muitos casos, significa apenas que aquela pessoa ainda está construindo experiência.

Inclusive, programas contemporâneos de formação veterinária já incluem temas como fenômeno do impostor, autoconfiança, reflexão profissional, resiliência e reconhecimento dos próprios limites como parte da preparação para a prática. 

O medo de errar

A Medicina Veterinária envolve decisões que podem ter consequências importantes.

Por isso, algum nível de preocupação com erros faz parte da responsabilidade profissional.

O problema aparece quando essa preocupação deixa de ajudar na preparação e passa a alimentar uma sensação constante de inadequação.

O profissional pode começar a pensar:

“Se eu errar, isso prova que eu não deveria estar aqui.”

Mas cometer um erro, precisar pedir ajuda ou não saber imediatamente como conduzir uma situação não transforma alguém em fraude.

Competência profissional não significa saber tudo.

Também envolve reconhecer limites, consultar referências, discutir casos, pedir uma segunda opinião e continuar aprendendo.

A comparação com os colegas

Outro fator que pode intensificar essa sensação é a comparação.

Na prática, enxergamos nosso próprio processo inteiro:

as dúvidas, os erros, os estudos, o medo e tudo aquilo que ainda não dominamos.

Dos outros, muitas vezes enxergamos apenas o resultado.

O colega que parece seguro durante um atendimento.

A profissional que publica um caso complexo.

O veterinário que já construiu autoridade em determinada área.

Sem acesso às dúvidas e dificuldades que fizeram parte daquela trajetória, a comparação pode criar uma impressão distorcida:

“Todo mundo sabe o que está fazendo, menos eu.”

Mas trajetórias profissionais não acontecem no mesmo ritmo.

Perfeccionismo: quando “fazer bem” se transforma em “não poder falhar”

O fenômeno do impostor também tem relação com o perfeccionismo.

Uma pesquisa com universitários identificou associação entre sentimentos de impostor, maior perfeccionismo, menor autoeficácia e menor felicidade.

Isso ajuda a compreender um ciclo bastante comum.

A pessoa sente que não é competente o suficiente.

Então se prepara excessivamente para evitar qualquer possibilidade de erro.

Quando consegue um bom resultado, em vez de reconhecer sua competência, pensa:

“Só deu certo porque eu me esforcei muito.”

A conquista, portanto, não reduz a insegurança.

Ela apenas aumenta a exigência para a próxima situação.

Insegurança não é a mesma coisa que incompetência

Existe uma diferença importante entre reconhecer que ainda há algo para aprender e concluir que você não merece ocupar aquele espaço.

Um profissional pode dizer:

“Ainda não tenho experiência suficiente nesse procedimento.”

Essa é uma avaliação específica e pode orientar desenvolvimento.

Outra coisa é pensar:

“Eu não sou bom o suficiente para ser veterinário.”

Aqui, uma dificuldade pontual se transforma em julgamento sobre toda a identidade profissional.

Essa diferença importa.

O que pode ajudar?

Não existe uma solução única.

Mas algumas estratégias podem contribuir para reduzir a força desses pensamentos.

Uma delas é tornar o desenvolvimento profissional mais concreto.

Em vez de perguntar:

“Sou bom o suficiente?”

pode ser mais útil perguntar:

“O que eu já sei fazer?”

“O que ainda preciso desenvolver?”

“De quem posso pedir orientação?”

“Que experiência me falta?”

Também pode ser importante construir relações profissionais em que seja possível admitir dúvidas sem medo de julgamento.

Mentoria, supervisão, discussão de casos e apoio entre colegas podem contribuir para que o aprendizado deixe de ser uma experiência solitária.

A literatura em educação profissional também aponta que apoio de pares e supervisores pode favorecer a construção de identidade e confiança profissional. 

E quando a insegurança começa a ocupar espaço demais?

Dúvidas fazem parte da formação e da prática.

Mas vale observar quando elas começam a interferir significativamente na rotina.

Por exemplo:

  • evitar oportunidades por acreditar que não é capaz;

  • estudar ou trabalhar de forma excessiva por medo constante de falhar;

  • sentir dificuldade persistente em reconhecer qualquer conquista;

  • viver em comparação contínua com colegas;

  • sentir ansiedade intensa diante de avaliações ou responsabilidades;

  • interpretar qualquer erro como prova de incompetência.

Quando isso acontece, conversar com um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender melhor o que está sustentando essa experiência.

Você não precisa saber tudo para ocupar o lugar que conquistou

A Medicina Veterinária exige estudo contínuo.

Isso significa que nenhum profissional termina sua formação sabendo tudo o que precisará saber ao longo da carreira.

Existirão casos novos.

Perguntas difíceis.

Áreas ainda desconhecidas.

Situações em que será necessário pedir ajuda.

Isso não invalida a formação.

É parte dela.

Talvez uma das mudanças mais importantes seja trocar a pergunta:

“Será que sou bom o suficiente?”

por:

“O que preciso aprender para lidar melhor com essa situação?”

Uma pergunta coloca toda a identidade profissional em julgamento.

A outra reconhece que competência também é construída.

Não saber tudo não transforma um profissional em impostor.

Reconhecer limites, continuar aprendendo e buscar apoio também fazem parte de uma prática responsável.

Referências

  1. Pákozdy C, Askew J, Dyer J, et al. The imposter phenomenon and its relationship with self-efficacy, perfectionism and happiness in university students. Current Psychology. 2024;43:5153–5162. DOI: 10.1007/s12144-023-04672-4. 

  2. Cokley K. The Impostor Phenomenon: Psychological Research, Theory, and Interventions. American Psychological Association; 2024. 

  3. University of Surrey. The Veterinary Professional – VMS1002. Conteúdo curricular inclui fenômeno do impostor, autoconfiança, estresse, identidade profissional e resiliência na formação veterinária.

Ekoa Vet

Associação Brasileira em prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária.

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